quinta-feira, 19 de março de 2009

Até embaixo da terra.


Durante algumas horas, a cidade americana de Tulsa virou o centro das atenções de uma legião de interessados que provavelmente jamais havia ouvido falar nela. Quem pôde viajou para lá. Quem não pôde acompanhou pela internet ou viu pela TV a exumação de um Plymouth Belvedere, exatos 50 anos após ser enterrado em uma cápsula do tempo, em 15 de junho de 1957. Meio século depois, sem ter testemunhado como o mundo e os carros mudaram nessas cinco décadas, o cupê rabo-de-peixe voltou à superfície com marcas evidentes dos anos vividos embaixo da terra.
Os organizadores do enterro diziam que a câmara de concreto onde puseram o Belvedere podia resistir "a um ataque nuclear", ameaça tão presente na vida dos americanos de 1957 quanto o aquecimento global no século 21. Mas não contavam com um inimigo menos assustador: as infiltrações. Dois dias antes da exumação, os promotores do evento deste ano levantaram a tampa da câmara e... mais de 1 metro de água ao redor do carro! Mesmo assim, a programação foi mantida. Ao meio-dia do dia 15, uma sextafeira, uma grua retirou o carro do túmulo.
Em 1957, cerca de 200 pessoas viram o enterro. Em 2007, milhares de espectadores e dezenas de jornalistas presenciaram a exumação e aguardaram a hora que a capa que cobria o veículo seria retirada. Às 19h, em uma arena para mais de 7000 pessoas, descobriu- se o resultado da ação do tempo e da água: a ferrugem havia tomado conta do Belvedere.
"Foi uma decepção. Não vou negar que fiquei triste", diz James Bankston, 68 anos, que viu o enterro e a exumação do carro ao lado do melhor amigo, Paul Turney. Naquele sábado quente de 1957, os dois estudantes nem sabiam que um Belvedere seria enterrado. Eles estavam a caminho do cinema quando viram a movimentação em torno do cupê. Chegaram perto da roda direita traseira e escreveram seus nomes na faixa branca do pneu. "Não está legível, mas a marca ainda está lá", afirma James.
O emblema do Belvedere também está lá, preso ao rabo-de-peixe enferrujado. Sob o capô, é possível ver a bateria conectada ao que sobrou do motor V8 de 4,9 litros. Se ainda funcionasse, ele seria acionado pelo restaurador californiano Boyd Coddington, um especialista em hot-rods e apresentador de um programa de TV a cabo.
A equipe de Boyd recuperou parte do cromado do pára-choque dianteiro, mas foi só. A corrosão destruiu a suspensão traseira. Dentro do carro, restaram o volante e as molas dos bancos. Todo o resto, inclusive os objetos da bolsa de uma mulher guardados no porta-luvas, se perdeu.
O cilindro de metal deixado ao lado do carro conseguiu preservar itens como uma bandeira americana com 46 estrelas (hoje são 50), documentos de 1957 e outros produtos da época. No portamalas, salvaram-se algumas latas de cerveja e cinco galões de gasolina. Os moradores de Tulsa pensavam que esse combustível estaria obsoleto em 2007 - previsão que hoje soa quase como alerta.
Roubando a cenaEnterrar um carro foi a forma que Tulsa encontrou para celebrar os 50 anos do estado de Oklahoma e chamar mais atenção que a capital, Oklahoma City, onde estariam o presidente americano, Dwight Eisenhower, e artistas de Hollywood. A estratégia funcionou. Fotografias do enterro foram publicadas em revistas como a semanal Life e voltaram a ilustrar reportagens 50 anos depois, no mundo todo. "Pessoas de vários países vieram ver o carro e conhecer a cidade", diz Debbie Dover, fotografada entre mais duas meninas sobre o capô do automóvel.
Mesmo enferrujado, o Belvedere foi a atração de uma feira de carros antigos no fim de semana após a exumação, ao lado de clássicos como o Chevrolet Bel Air 1957 conversível de Gene McDaniel. Vendo o enterro do banco traseiro desse carro, tudo o que Gene pensava é se estaria vivo meio século depois. Em 2007, aos 70 anos, ele voltou ao local com o Bel Air, o filho Troy e o neto Stuart, jovem de 18 anos responsável pelo website oficial do Belvedere (
http://www.blogger.com/'http://www.buriedcar.com).
Agora que sabem o que aconteceu com o Belvedere, Stuart e os 382457 habitantes de Tulsa temem por seu futuro. Em 1957, os organizadores fizeram um concurso: quem adivinhasse a população da cidade em 2007 ganharia o Belvedere e uma poupança de 100 dólares (mais de 700 dólares hoje). O palpite vencedor foi dado por Raymond E. Humbertson, um militar que estava de passagem por Tulsa e morreu em 1979 sem deixar filhos.
Seus parentes mais próximos são duas irmãs, Catherine Johnson, 93 anos, e Levada Carney, 87, que vivem no estado de Maryland. "Recebemos algumas ofertas pelo carro, mas nada está decidido. Ele pode inclusive ficar em Tulsa", afirma Robert Carney, sobrinho do vencedor, que diz ter recebido propostas de interessados em restaurar o carro. "Mais frustrante que ver o Belvedere enferrujado seria vê-lo deixar Tulsa ou ser leiloado no eBay", diz Stuart.

Um comentário:

Cesar disse...

É um fato historico muito interessante!!!!